Na nota introdutória do Editor Inglês, Alix e James Strachey nos falam que o tratamento do caso “O Homem dos Ratos”, conduzido por Freud, começou em 1º de Outubro de 1907. A condução deste tratamento durou, segundo Freud, quase um ano. Porém, foi no verão de 1909 que Freud preparou o caso para ser publicado. “Uma carta a Jung revela que Freud levou um mês preparando o que, afinal, enviou à gráfica em 7 de Julho de 1909” (Nota introdutória, 1996, p.158).
No decorrer do caso clínico, observamos estratégias típicas da Neurose Obsessiva, tais como: a impossibilidade presente no desejo do obsessivo, a dívida, o gozo, auto-recriminação e a metonímia presente no deslocamento da cadeia significante. O significante neste tipo clínico da estrutura neurótica, consiste em uma força capaz de comandar o sujeito do inconsciente e de determinar seu destino, seus atos e seu próprio pensamento. Estes sujeitos são particularmente “religiosos” do significante. Eles crêem no significante.
Freud “transformou a história do tenente Ernest Lehrs no paradigma psicanalítico desse tipo de distúrbio” (RIBEIRO, 2003, p.29). Vejamos um resumo da mirabolante história de um caso de neurose obsessiva – o Homem dos Ratos, nas palavras de Carneiro Ribeiro (2003), a história da neurose obsessiva de Ernst Lehrs:
“Um dia, no acampamento militar onde estava sediado o seu regimento, um certo capitão Nemeczek havia narrado um cruel suplício que, segundo ele, se aplicava no Oriente. Tomava-se um tonel, com uma única abertura, e nele se colocavam ratos famintos. Sobre a abertura do tonel se sentava nu o infeliz supliciado, oferecendo em seu corpo a única saída possível para os ratos. Esta história havia produzido a mais viva impressão no tenente Lehrs.
Ora, alguns dias depois, o jovem perdeu seus óculos e encomendou um novo par a seu oculista de Viena, que os enviou pelo correio. O capitão Nemeczek disse então, erroneamente, que ele devia pagar o reembolso postal ao tenente Z, que havia pagado a dívida. O tenente Lehrs jurou mentalmente fazê-lo e completou em pensamento a frase do capitão: ‘senão o suplício dos ratos será aplicado à moça que eu amo e a meu pai’. Há aí um pequeno detalhe curioso: o pai do Homem dos Ratos já havia morrido!
Ao tentar cumprir o juramento, descobriu que quem havia pagado o reembolso era uma senhora que trabalhava no correio. Armou então o plano de procurar o tenente Z, dar-lhe o dinheiro e pedir que ele o entregasse à senhora do correio. Porém o tenente Z havia sido transferido para outro regimento em outra cidade. Lehrs resolveu então ir de trem à cidade onde estava o tenente Z, convencê-lo a voltar com ele para sua cidade, dar-lhe o dinheiro para que ele o entregasse à senhora do correio, que por sua vez deveria entregá-lo ao tenente B, que era o verdadeiro encarregado do correio. Tudo isto para que o tormento dos ratos não fosse aplicado a sua namorada e a seu pai (…).
Foi nesse estado de confusão mental e profunda angústia que o jovem procurou Freud”. (Ribeiro, 2003, p.30-31).
Qual seria então o status de rato? No decorrer deste caso clínico, podemos observar que “rato” pode ser articulado nos três registros: real, simbólico e imaginário.
No simbólico, rato se presentifica no deslizamento significante da cadeia associativa: raten – ratten (prestações – ratos); heiraten (casar); spielratte (rato de jogo).
“A partir dessa equivocidade significante, ele faz o sintoma. Ratten / raten é um significante que se encontra na encruzilhada de articulações significantes diversas, constituindo o sintoma como sobredeterminado, como nos diz Freud. A sobredeterminação nada mais é do que a articulação das cadeias significantes encontradas ao se decifrar o sintoma, isto é, ao se fazer deslizar e desdobrar os significantes recalcados que a ele estão atrelados” (QUINET, 2000, p.39).
No registro do imaginário, “rato” aparece na cena do cruel suplício relatada pelo Capitão Nemeczek que se aplicava no leste europeu e comentada pelo paciente com o mais profundo pavor, porém, com certo gozo. “Eu tinha certo terror dele, pois obviamente gostava de crueldade” (FREUD, 1909, p.170).
No real, “rato” irá nomear algo do gozo S(A̸), significante da falta e do furo, ali onde não há significante que dê conta de fazer semblam ao real, ou seja, ao indizível, porém expresso inclusive na face do paciente, gozo este apreendido por Freud: “sua face assumiu uma expressão muito estranha e variada. Eu só podia interpretá-la como uma face de horror ao prazer todo seu do qual ele mesmo não estava ciente” (FREUD, 1909, p.208).
No caso, podemos destacar que a cadeia de significantes apresenta seu deslocamento no processo analítico sem que o sujeito possa dominar conscientemente a passagem de um a outro. Em “O homem dos ratos”, vemos um sujeito marcado pela instância da letra, ou seja, por um significante (ratten), que se impõe de uma maneira obsessiva e de uma forma enigmática para o sujeito do inconsciente. Ao longo da narrativa freudiana, observamos que o significante se encontra ligado a diversos outros, ou seja, a sua cadeia que se desloca a partir do significante mestre (S1). Podemos observar uma ligação de homofonia tanto entre ratten (ratos) e raten (traduzido por “pagamento”, dívida), que representa um aspecto perturbador na neurose obsessiva, quanto entre ratten e spielratte (literalmente, “rato de jogo”, expressão coloquial para jogador), referindo-se ao pagamento de uma dívida de jogo contraída pelo pai.
Ocorre aí, por assim dizer, também uma equivalência metafórica entre o rato, ser que morde as pessoas e é punido cruelmente, e o próprio paciente que, na infância, foi castigado por haver mordido a babá.
Em uma importante passagem com relação ao deslocamento metonímico, o paciente diz a Freud, sobre ao valor da sessão, que surge em sua mente: “tantos florins, tantos ratos” (FREUD, 1909, p.215). Vale lembrar que florins era a moeda da época em Viena. Observamos o deslocamento do paciente ao dinheiro, à dívida. “Desse modo, os ratos passaram a adquirir o significado de dinheiro. O paciente deu uma indicação dessa conexão reagindo à palavra ‘Ratten’ (ratos) com a associação ‘Raten’ (prestações). Em seus delírios obsessivos ele inventou uma espécie de dinheiro regular como moeda-rato.” (FREUD, 1909, p.215). Assim, o estabelecimento das leis da metáfora e da metonímia faz completa abstração da dimensão pulsional.
Segundo Quinet:
“Qual é a chave que utiliza Freud para desvendar o enigma desse sintoma? Ele percebe o elemento significante de articulação dessa dívida com a economia libidinal do sujeito a partir do significante prestação (quantia que se paga parceladamente quando se compra alguma coisa a prazo), que em alemão é Raten, com um T, que equivoca com Ratten com dois Ts, que significa ‘rato’. É a mesma palavra que se ouve, mas não é a mesma palavra.” (QUINET, 2000, p.38).
Assim, a homofonia é um elemento importantíssimo na decifração do sintoma. Para chegar a cifra, o sujeito precisa trabalhar por retroação o seu inconsciente. O sintoma não cessa de surgir e é sustentado por um jogo de palavras. No “Homem dos Ratos”, vemos o seu deslocamento metonímico da sua cadeia de significantes: ratten / raten / spielratte. Vale lembrar que quem interpreta é o próprio analisante a partir das intervenções do analista. Podemos dizer que o sintoma é a cifra da letra. A letra (raten) consiste no núcleo real do sintoma – a algo irredutível. Logo, temos Σ = f ( x ), onde x é da ordem do um, é efeito do real no simbólico, da letra propriamente dita (raten), que se desloca para dívida, dinheiro, jogo. A letra é o que permite o ciframento na clínica psicanalítica.
Portanto, o analista é colocado na posição de sujeito-suposto-saber. Transferência e suposto saber andam juntos e são condição sine qua non para o processo analítico acontecer. Neste sentido, o diagnóstico na clínica psicanalítica torna-se uma questão ética para o analista, pois é através do estabelecimento do diagnóstico que será conduzida a direção do tratamento do analisante. De uma promessa de cura, no que tange as neuroses de defesa – histeria e obsessão – decifrando o gozo a partir da associação livre do analisante e da escuta flutuante do analista. É então que as identificações vão sendo desconstruídas. Marcam-se os significantes mestres, aqueles que se destacaram na história de vida do sujeito. “O que mostra que a associação de idéias se faz pela via do significante e não do significado” (QUINET, 2000, p.37).
“… a psicanálise opera sobre o inconsciente, que dá prevalência ao significante – pois o significado nada mais é que outro significante que, junto com o primeiro, produz efeito de sentido. O significante é apenas o som da palavra esvaziado de sentido, como uma palavra estrangeira desconhecida ou o nome próprio que, embora designe, nada significa” (QUINET, 2000, p.37).
A interpretação do analista, que vem sempre descompletar algo, instaura ou aponta uma falta irremediável, opera no deslocamento da cadeia significante. A interpretação consiste em uma pontuação oportuna que dá sentido ao discurso do sujeito. É por isso que a suspensão da sessão desempenha o papel de escansão, que tem o valor de uma intervenção, precipitando momentos conclusivos. O sujeito do inconsciente é evanescente, não tem nenhuma substância e seu ser é vazio, é feito de significantes vindos do Outro. É causado, e sua causa está em outro lugar, no objeto perdido, como dizia Freud, jamais reencontrado, e que na álgebra lacaniana ganhou o nome de “objeto pequeno a”.
“Interpretação da qual o mínimo que se pode dizer é que ela é inexata, uma vez que é desmentida pela realidade que presume, mas que mesmo assim é verdadeira na medida em que Freud nela dá mostras de uma intuição em que ele antecipa o que introduzimos sobre a função do Outro na neurose obsessiva, demonstrando que essa função, na neurose obsessiva, admite ser sustentada por um morto, e que, nesse caso, não poderia ser mais bem exercida do que pelo pai, uma vez que, estando efetivamente morto, ele retornou à posição que Freud reconheceu como sendo a do Pai absoluto” (LACAN, 1998, p.603-604).
Os benefícios analíticos não são imediatos. É comum o sujeito em análise experimentar uma intensificação de seu sofrimento, justamente por haver começado a falar sobre aquilo de que ele nada queria saber. De qualquer modo, a psicanálise reconhece que a enunciação do sentido dos sintomas é uma condição indispensável para o desenrolar do processo analítico.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. Notas sobre um caso de Neurose Obsessiva. O Homem dos Ratos. 1909. Edição Standard Brasileira das obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol X. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
QUINET, Antônio. A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
RIBEIRO, Maria Anita Carneiro. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
Resumo
Este artigo propõe abordar os três registros no caso princeps da psicanálise: O Homem dos Ratos, a fim de estabelecer o deslocamento metonímico da cadeia significante do mesmo.
Palavras-chave
Neurose obsessiva, significante, real, simbólico, imaginário
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